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Sobre o presidente da ABRAPA

Quando Luiz Antônio de Medeiros Neto
nasceu, no interior da Amazônia, em plena selva, ninguém imaginaria que se
tornaria um dos maiores sindicalistas do Brasil, responsável pela modernização
do sindicalismo brasileiro, a partir da Constituição de 1988.

Medeiros nasceu em 23 de janeiro de
1948, às margens do rio Itucumã, no seringal Vitória, na Amazônia, filho de
Arlindo Antônio de Medeiros, de origem paraense, e Maria de Lurdes de Aguiar
Medeiros – descendentes dos antigos “soldados da borracha” cearenses.

Aos oito anos, sua família foi para
Eirunepé, às margens do rio Juruá, e aos 12 ele foi com o irmão Edmar para a
capital Manaus. Em 1965 , com 17 anos, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde
frequentou o Restaurante Central do Estudantes, mais conhecido como
“Calabouço”, que atendia estudantes pobres e era local de grande efervescência
política.

Aos 18 anos ele cumpriu serviço
militar, como paraquedista, mas logo, com os amigos do Calabouço, iniciou sua carreira
política, envolvendo-se com o movimento de resistência à Ditadura, instalada em
1964. Chegou a ser diretor da Frente Unida dos Estudantes do restaurante.

Em 1969, foi preso – e torturado –
por participar das lutas contra o regime militar. Libertado em 1971, refugiou-se
no Chile e lá filiou-se ao PCB – Partido Comunista Brasileiro. No dia 11 de
setembro de 1973, acordou com a capital Santiago bombardeada por aviões: era o
golpe de estado do general Pinochet, que derrubou o governo eleito de Salvador
Allende.

Naquele tempo o Chile era considerado
uma “ilha de liberdade”, já que a maioria dos países latino-americanos estava
sob o comando de ditaduras. Foram tantas as detenções que o estádio Nacional do
Chile foi usado como prisão, e ali foram torturadas e fuziladas centenas de
pessoas.

Com apoio da Cruz Vermelha, Medeiros
conseguiu escapar da morte certa e obter asilo na antiga União Soviética, onde pôde
estudar e trabalhar. Ficou dois anos em Moscou, estudando ciências políticas e
um ano em São Petersburgo, onde aprendeu a ser torneiro mecânico – como Lula,
que então surgia no Brasil como sindicalista e grande líder operário.

Medeiros voltou para o Brasil em
1977, dois anos antes da anistia. Foi trabalhar na metalúrgica K.G. Sorensen,
por dois anos. Com a anistia, pôde retomar às atividades políticas e passou a
atuar no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, o maior e mais importante da América
Latina.

Naquela época, o país assistia à
retomada do ativismo sindical, reprimido desde a instalação do regime militar.
Surgia na região do ABC paulista um novo sindicalismo, responsável pela
deflagração de sucessivas greves que paralisaram setores de ponta da indústria.
Foi nesse cenário que, em 1979, iniciou sua trajetória sindical, como membro da
comissão de salários do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, atendendo ao
convite do então presidente da entidade, Joaquim dos Santos Andrade, o
“Joaquinzão”.

Em 1981, deixou o PCB e foi eleito
para uma diretoria do Sindicato e, em 1984, para a vice-presidência. Passou a
comandar toda a atividade sindical e política da entidade. Nas eleições de 1987,
foi eleito presidente, derrotando com larga vantagem uma chapa da Central Única
dos Trabalhadores, a CUT.

Todas as correntes ideológicas queriam
seu controle, naquela altura uma potência, com meio milhão de trabalhadores
distribuídos em mais de dez mil empresas. Surgiu aí o famoso “sindicalismo de
resultados”, por ele liderado.

Sob sua presidência, a entidade
passou pela maior reestruturação já vista no movimento sindical brasileiro: foram
criadas quatro subsedes e construiu-se a sede escola central, o Palácio do
Trabalhador, na rua Galvão Bueno, bairro da Liberdade – um edifício histórico, que
foi também a sede da Força Sindical, fundada por Medeiros em 1991.

Os diretores sindicais passaram a
visitar as fábricas diariamente, levantando as demandas e necessidades dos
trabalhadores.

Diante da guinada nas ações do
sindicato e da nova atitude dos diretores, a confiança dos trabalhadores
cresceu exponencialmente, fato refletido na presença maciça da categoria nas
assembleias, que chegaram a contar com mais de 30 mil participantes.

Em 1992, fez com os empregadores um
acordo coletivo que passou para a história do sindicalismo: praticamente foram
dobrados os salários e reduzida a jornada de trabalho de 48 para 44 horas
semanais para todos os metalúrgicos da capital, e estabelecidas cláusulas que
davam proteção a acidentados e mulheres, fato inédito na história do
operariado.

A
Força Sindical combateu o desemprego, o arrocho salarial e lutou por melhores
condições de trabalho. Os acordos eram feitos por intermédio das negociações
diretas com as empresas, nas quais as eventuais paralisações eram um meio, não
um fim em si mesmo. A proposta encontrou eco em vários segmentos dos
trabalhadores, desgastados com o grande número de greves dos anos anteriores. A
organização que nasceu grande cresceu ainda mais e logo se tornou a segunda
maior central sindical do país.

Medeiros
visitou o papa em Roma, estabeleceu canais de comunicação com o sindicalismo
europeu, norte-americano e asiático – fez uma histórica visita à China, então
no início de sua fase de crescimento econômico – participou do impeachment ao
presidente Collor, a quem apoiara no passado, e estabeleceu depois um diálogo intenso
com o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Medeiros deixou a atividade sindical
em 1998, para dedicar-se à atividade político-partidária, sendo eleito naquele
ano deputado federal por São Paulo. Ao longo de dois mandatos ele se dedicou a
projetos e ações visando o combate ao desemprego e o desenvolvimento da
qualificação profissional.

Tal atuação levou-o a presidir a CPI
da Pirataria, criada a partir das discussões sobre a destruição dos empregos e
o risco à vida que essa prática provoca. Como presidente da CPI, fez amplo
debate sobre a pirataria em suas principais ramificações: de remédios, de
eletrônicos e de brinquedos. Logo se descobriu que por trás da pirataria havia
crime organizado e corrupção. Fato marcante deste período foi a prisão e
condenação de um empresário chinês conhecido como o Rei da Pirataria.

Entre 2007 e 2010, no governo Lula, foi
Secretário das Relações de Trabalho e Emprego do Ministério do Trabalho; lá criou
normas para evitar a fraude na concessão das cartas sindicais, buscando tornar
os sindicatos mais representativos.

Em 2015 , foi convidado pelo prefeito
de São Paulo, Fernando Haddad, para chefiar a Secretaria das Subprefeituras,
onde permaneceu até o final de seu mandato. É uma
secretaria
estratégica, responsável pelo planejamento e organização mais geral das
atividades e rotinas das 32 Subprefeituras, buscando conferir padrão, coerência
e sentido às ações da administração no que diz respeito à zeladoria de
equipamentos públicos, manutenção básica da infraestrutura urbana e atendimento
aos munícipes. Afora toda a ação coordenadora e articuladora das atribuições e
competências das Subprefeituras, essa Secretaria também atua na realidade
concreta do do município, por meio de obras sob sua responsabilidade direta.

Entre tantas
iniciativas em que esteve à frente, destacou-se o aperfeiçoamento da “Operação
Tapa-Buraco”: em lugar de simplesmente preencher o buraco aberto, como antes
era o costume, toda intervenção desse tipo passou a envolver o “requadramento”
– um recorte quadrangular no entorno do buraco, com a remoção do asfalto antigo
– para só então ser aplicado o asfalto novo, evitando assim o retrabalho e as
pequenas “lombadas”. Em paralelo, as ações de recapeamento priorizaram as vias
de trânsito intenso com presença de transporte público: corredores de ônibus,
por exemplo, receberam um tipo de asfalto mais durável e capaz de proporcionar
maior conforto aos usuários do transporte coletivo. No cômputo geral, até o
final de 2016, foram 360 km de vias recapeadas.
Foi, sem dúvida, sua experiência como gestor público a
que ele considera mais desafiadora, comovedora e gratificante.

Como secretário municipal, Medeiros teve
contato físico e direto com a realidade dura da capital. De um lado, com o que
funciona (e o que não funciona) na Prefeitura paulistana. De outro, com as
necessidades da população mais sofrida, em especial na periferia distante, onde
esteve presente sempre que pôde. Moradia precária, falta de asfalto, de água,
de luz, de saúde e educação, de esperança – de dignidade. Algo inaceitável em
pleno século XXI, na cidade mais rica do país, uma das maiores do planeta. Fez
o que esteve ao seu alcance, principalmente para os mais carentes. Foi uma
vivência intensa, na qual aprendeu muito sobre o povo lutador e suas
dificuldades, mas também sobre desorganização administrativa e desperdício,
falta de planejamento e de sensibilidade.

Trocando
lama e poeira por guias e sarjetas, asfalto e outras melhorias, tentou garantir
o possível em matéria de dignidade e cidadania.

Saiu da prefeitura com um sentimento
grande de dívida em relação à cidade e sua gente mais necessitada. Em relação a
tudo o que gostaria de ter feito e não teve tempo ou condições de realizar. Mas
também, nessa altura de sua vida, de dívida em relação a tudo o que São Paulo havia
lhe proporcionado ao longo da existência. Foi em São Paulo que Medeiros
participou das principais lutas, que completou sua formação profissional,
política e humana. Onde criou família e filhos. Onde se tornou quem é.

Já aposentado, mas de volta ao
Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, do qual nunca se afastou, e onde é
diretor, Medeiros alterna sua ação com uma luta constante pelos direitos dos
aposentados.

Agora à frente da Abrapa, associação
que ajudou a fundar e da qual foi eleito o primeiro presidente, Medeiros quer
se dedicar intensamente às pessoas que passaram toda a vida trabalhando e às
vezes se sentem abandonados, nos anos finais de suas existências.

Em 2002, se reelegeu como parlamentar e um ano mais tarde tornou-se presidente da CPI que investigava a pirataria no Brasil. Também compôs a CPI dos Medicamentos no mesmo mandato. Entre 2007 e 2011, ocupou o cargo de secretário de Relações do Trabalho, do Ministério do Trabalho.

Depois disso, foi responsável pela fundação da Associação Brasileira de Apoio aos Aposentados, Pensionistas e planejamento para a Aposentadoria (ABRAPA). A entidade surgiu em 2020 para lutar em favor desse público que busca uma aposentadoria digna. Medeiros está à frente da associação como presidente.

Além disso, Medeiros publicou três livros: “A conquista da modernidade (1992) ”, “Um projeto para o Brasil (1993) ” e “A CPI da pirataria (2005)”. Também recebeu as seguintes condecorações: Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho, Comendador pelo TST (1972); Ordem do Congresso Nacional (1988); Grande Benfeitor, da Cooperativa dos Garimpeiros de Rondônia (19809; Ordem do Mérito Militar, Cavaleiro (1993); Ordem do Rio Branco, Grão-Mestre, MRE (1993); Honra ao Mérito, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo (1994); Ordem do Mérito Militar, Insígnia; Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho, Grande Oficial pelo TST (1999); e Ordem do Mérito do Trabalho, Grande Oficial, (2000).

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